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domingo, 12 de abril de 2015

Segundo a PM, 800 mil pessoas ocupam toda a extensão da avenida; público protesta com cornetas e gritos de guerra

Milhares de pessoas – a maioria delas vestida com as cores do Brasil – tomaram toda a a avenida Paulista na tarde deste domingo (12) no segundo maior protesto do País contra o governo da presidente Dilma Rousseff. Segundo a Polícia Militar, a manifestação reuniu um milhão. Para o instituto Datafolha, a participação dos anti-Dilma neste domingo, ainda que relevante, foi bem menor que a apontada pela polícia. Teriam sido 800 mil pessoas em São Paulo.

Por toda a extensão, carros de som conclamavam o público a se manifestar contra o governo. Em um deles, o locutor dizia: "Nós precisamos tirar o PT do poder e mandá-los para Cuba". Em outro, o grito era "Lula é criminoso e traidor". Um terceiro carro de som ostentava uma grande cruz preta.

Boa parte da multidão que protesta na Paulista empunha cartazes que pedem saída de DilmaDavid Shalom/iG São Paulo

Boa parte da multidão que protesta na Paulista empunha cartazes que pedem saída de Dilma

Entre o público, havia famílias inteiras e muitos empunhavam cartazes com os textos  "Fora Dilma", "Chega de PT" e "Aqui não é Venezuela". Em meio aos cartazes, alguns chamaram a atenção, como o que diziz "Dilma devolva meu dólar a R$ 1,99" e outro em que se lia "Dilma puta".

"Hoje é um dia histórico para o Brasil. Vocês estão fazendo história. Estamos mulheres, crianças, homens, idosos, brancos, negros, todos aqui. É um dia histórico. Fora PT", disse um dos líderes do Vem pra Rua, um dos movimentos que organizou o protesto deste domingo. "Aqui estão os verdadeiros trabalhadores deste País! Ninguem aqui foi pago para vir, aqui vive o verdadeiro povo brasileiro", gritava. Ao lado do carro de som, o Vem pra Rua distribuía cornetas para a população.

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O casal Pablo de Nicola, 36 anos, e Luana Maciel, 25 anos, foi pedir o fim da corrupção, mas não acredita que o impeachment da presidente Dilma acontecerá. "Não temos esperança de nada, nem em 2018". Para eles, o melhor partido no poder seria o PSOL. "Não somos a favor da intervenção militar. Democracia tem de continuar", disse Pablo.

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Luana Maciel e Pablo de Nicola; ela tirou os óculos de sol para não parecer eliteBárbara Libório/iG São Paulo

Luana Maciel e Pablo de Nicola; ela tirou os óculos de sol para não parecer elite

Luana, que usava um óculos de sol RayBan, tirou o acessório na hora de ser fotografada. "Tira, senão vão dizer que é elite. Se eu fosse elite, estaria em Miami, e não na Paulista tomando chuva", riu Pablo.

Em um grupo de 20 pessoas, entre familiares e amigos, a psicóloga Jossi Ruzene, de 48 anos, foi com o filho, o estudante Giovanne, de 16 anos, para protestar contra o governo de Dilma. Os dois prepararam cartazes em cartolinas e vestiram camiseta com as cores verde e amarelo. "Sou apartidária. Estou protestando por um País mais digno. É uma vergonha o que a gente paga de impostos para ver o dinheiro sendo escoado no ralo das contas do governo", disse Jossi.

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Giovanne completou a fala da mãe: "Ela prometeu que não iria subir os juros, mas foi a primeira coisa que fez". Os dois não acreditam no impeachment, mas dizem que a manifestação pode "dar um susto" na presidente.

Márcio Camargo, ex-funcionário da Petrobras, tirou o uniforme laranja do armário para partcipar do ato contra o governo. "Trabalhei dez anos embarcado. É muito triste ver a Petrobras, uma empresa reconhecida internacionalmente, com meia dúzia enriquecendo às custas dela. Vejo as pessoas protestando contra a violência, mas o maior crime é esse assalto aos cofres públicos", disse. Alem de Camargo, a mulher e irmã dele também vestiam macacões laranja, uniforme de funcionários da estatal.

Hino do impeachment

Entre um gole de água e outro, Marcello Reis, fundador do Revoltados Online e um dos organizadores do protesto, pegava o microfone e conclamava a multidão a repetirem frases de ordem como "Fora PT, fora Dilma". Desde o início da manifestação, ele nao parou um minuto. No blazer cinza suado, exibia um broche com o simbolo da República brasileira. "Queria ver a revolta do povo brasileiro e essa revolta chegou", disse.

Muitos manifestantes carregaram cartazes para a manifestação paulistanaVilmar Bannach/Futura Press

Muitos manifestantes carregaram cartazes para a manifestação paulistana

Alçado a celebridade instantânea graças ao seu ativismo politico, a conversa com Reis é frequentemente interrompida com pedidos de selfies e parabenizaçoes. A manifestação organizada por ele teve a participação da banda Os Reaças, autora do Hino do Impeachment. Ao som deste rock, que pretende se tornar o hino deste movimento, o povo pula e repete o refrão. "Impeachment, pede pra sair, impeachment para salvar a nação, impeachment, tá na constituição."

Para os lideres da banda, a música nao poderia ter sido lançada em melhor momento. "É maravilhoso, é um momento histórico e inédito na história do Brasil. O povo está tomando consciencia politica", afirmou o músico Eder Borges, 31 anos.

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"Isso que é democracia. As pessoas falando o que querem. Não podia ser melhor. Ver a massa cantando o refrão", completou o músico Luiz Trevisani, de 51 anos".

Exército mirim

A familia do metalurgico aposentado Nilton Vampel, de 73 anos, também compareceu. Cada um por seus motivos. Nitlon diz que foi protestar contra o corte nas aposentadorias. "Tiraram a pensão das viúvas", disse. O filho, Ricardo Vampel, protestava pela reforma politica e disse não acreditar no impeachment. "O PT tem muita força e um impeachment seria ruim para o Brasil. Iria agravar a crise".

Quando questionado sobre o fato de o protesto desta tarde estar sendo organizado pela elite, ele foi categórico. "Estão querendo promover uma guerra de classes. Mas a classe média briga mais. A população mais carente não reivindica nada."

Crianças pintam cartaz em manifestação em São Paulo, no domingo (15)Barbara Liborio/iG

Crianças pintam cartaz em manifestação em São Paulo, no domingo (15)

A pequena Luana, 3 anos, não entendia muito bem o que acontecia, mas fez parte do exército mirim que compareceu ao protesto. "Ela trouxe a tinta guache e começou a pintar", disse orgulhoso o pai da garota, o administrador Felipe Guedes, 38 anos. "Por enquanto, ela só está pela brincadeira".

Guedes é um dos milhares que estiveram nos protestos contra Collor, na década de 1990. Ele diz não aguentar mais roubalheira, mas opta por ser cuidadoso com seu posicionamento político atual. "Nao sou a favor do impeachment, ao menos por enquanto", diz ele, que sorri ao pensar no futuro da filha. "Se ela for de esquerda lá para frente, vou aceitar. Afinal, é minha filha."

Apesar da garantia dos pais de que possuem uma postura politica à frente de sua idade, os pequenos Stéfano e Rafael Costa, 8 e 6 anos, respectivamente, não sabiam muito bem o que acontecia. "Nao sei", respondeu Stefano quando perguntado sobre o motivo para chegar à Paulista batendo em uma panela. O pai, o engenheiro Marcelo Costa, 40 anos, o cutuca. "É contra a Dilma!".

No ombro do pai, Rafael observava tudo com o olhar assustado. "Mas eles sabem exatamente porque estão aqui", garantia a mãe, a arquiteta Zoé Gardini, 40 anos. "A gente conversa muito com eles sobre corrupção, sobre a situação caótica dos hospitais, das escolas, da seguranca. Na verdade, foram eles que insistiram para que viéssemos."

Vim de graça

"Ninguém está aqui por mortadela", disse um dos organizadores do ato contra o governo Dilma. A fala ganhou aplausos dos manifestantes que gritavam em coro "eu vim de graça". A frase estampava diversos cartazes feitos a mão.

Desde sexta-feira(13), dia da mobilização em favor do governo, um vídeo em que um manifestante com a camisa da CUT (Central Única dos Trabalhadores) afirma ter recebido R$34 para participar do ato circula pelas redes sociais e watsapp.

"Eu vim de graça. Esta manifestação é legitima", afirmou a designer Liza Domingues, de 32 anos, com o cartaz "Aqui não tem vale-protesto". Liza diz ser contra o impeachment. "Se o Michel Temer assumir, vai continuar a mesma coisa. Se tiver novas eleições, o Lula ganha, infelizmente".

Capa de chuva e vuvuzela

Teve quem aproveitou o protesto para movimentar a economia informal. É o caso do marreteiro Juscelino Moreira Guimarães, de 46 anos. Ambulante há 30 anos, ele se orgulha em dizer que conseguiu pagar a faculdade de Direito para para o filho com o trabalho que realiza nas ruas.

Francisco quer acabar com o estoque que sobrou da Copa do MundoAna Flávia Oliveira/iG São Paulo

Francisco quer acabar com o estoque que sobrou da Copa do Mundo

Neste domingo, ele bolou uma promoção para duplicar as vendas. O cliente que comprasse uma capa de chuva ganhava uma vuvuzela de brinde. O kit foi vendido por R$10. Ele disse que investiu R$90 nas capas, as vuvuzelas eram sobras do Copa do Mundo.

Os produtos da Copa também fizeram sucesso no carrinho estrategicamente localizado na saida do Metrô Trianon-Masp. Francisco Chagas, de 60 anos, disse que esperava ganhar R$ 1.000. Em seu carrinho havia cornetas, sombreiros, perucas nas cores verde e amarelo, além da tradicional bandeira. "Devia ter trazido apito. Estaría vendendo muito mais", disse.

Sobre o protesto, ele diz querer apenas o bem do Brasil. "Com Dilma ou sem ela", afirma, entre um cliente e outro.

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